coluna tião lucenaMarcos Pires foi na jugular com este artigo de hoje.

Os pais são os eternos esquecidos na história da vida.

Criam os filhos, mimam os filhos, mas quando eles crescem e casam, esquecem os pais.

E quando lembram, o fazem para cumprir uma obrigação protocolar.

Vão a eles, como se estivessem cumprindo uma tarefa da escola, demoram pouco e sempre inventam uma emergência para escapulir.

Sem contar aqueles que, para se livrar do estorvo, jogam os pais no asilo.

Eu tive uma boa convivência com meus pais, mas poderia ter feito melhor.

Hoje eu sei que poderia.

Quando ia a Princesa, ficava mais tempo com os amigos do que com os velhos.

E quando chegava em casa, altas horas, lá estava ele, sentado ao redor da mesa grande da cozinha, a me esperar.

Eu chegava, dava boa noite e ia dormir.

Nunca perguntei se queria conversar, falar dele, de nós.

Quando vinha a João Pessoa, eu o buscava na rodoviária e o deixava na casinha do Geisel depois de um curto bate papo.

Quando ele morreu, senti um vazio no peito. Um vazio que não nunca foi preenchido.

E minha mãe, viúva e sozinha, morava na casinha do Geisel.

Eu a visitava nos finais de semana. Chegava, tomava um café, ou então almoçava e ia embora.

Não ficava nem para palitar os dentes.

Hoje estou quase na idade que papai tinha quando morreu.

Eu e dona Cacilda voltamos a ficar só nós dois.

Os filhos ou casaram ou foram morar longe.

Estamos como estavam meus pais e os pais dela.

Recebendo, como eles, as visitas domingueiras dos filhos.

Que chegam tarde, por causa dos compromissos e vão embora logo, porque outros compromissos os chamam.

E agora eu sinto o que meus pais e os pais de dona Cacilda sentiam.

E os dois, eu e ela, com medo de ficar viúvos.