Maria gemeu baixinho e avisou, aflita, que estava chegando a hora. A bolsa se rompera, molhando o lombo do jumento. Era questão de minutos o nascimento do menino. Estavam às portas de Belém, vindos de Nazaré, para o censo determinado pelo governador Quirino. Maria viajara grávida, pois não dava para esperar até o nascimento do filho para depois cumprirem, ela e José, a determinação da lei. E agora estavam ali em Belém, cidadezinha pequena, localizada onze quilômetros ao sul de Jerusalém, o menino nascendo, sem ter um abrigo.

José puxou o cabresto do jumento, com Maria no lombo. Saiu pedindo ajuda, implorando hospedagem. As pensões estavam lotadas e nas casas de família ninguém lhe deu ouvidos. “Tem um menino nascendo, por favor ajudem”, clamava na sua voz estridente e rude de carpinteiro. A resposta era uma batida de porta na cara. Maria já não agüentava mais. Suplicava ao marido para pararem no pátio da praça e ali mesmo fazerem o parto.

Foi quando o jumento, cujo cabresto José soltou para fazer mais uma súplica, saiu trotando para os fundos de uma hospedaria de dois andares. José correu atrás, alcançou o animal quando este entrava numa estrebaria usada pelos peregrinos para guardar suas montarias de viagem. Havia capim seco e um tanque cheio de água, onde os animais bebiam.

Maria agradeceu a Deus pelo lugar que lhe foi mostrado. Pediu a José para desembarcá-la do jumento e deitá-la sobre as palhas secas. “Aqui está bom, meu marido”, disse ela. Depois o orientou a pegar panos limpos na bagagem e ajudá-la no parto. Não havia parteira e José supriria essa falta. José tremia, abobalhado. Nunca se vira em situação semelhante. Seu ofício sempre fora o de talhar móveis, tornear madeiras e fabricar peças que eram elogiadas na cidade de Nazaré. Carpinteiro melhor não existia por aquelas bandas. Mas fazer parto, isso nunca se imaginou fazendo.

-Ajude aqui, me ponha de costas, pressione minha barriga, não tenha medo, meu marido, vai dar tudo certo -, encorajou-o Maria, trincando os dentes para não gemer. José obedeceu. Fez a pressão, Maria apressou o respirar e, passados alguns segundos, ei-lo fora do ventre. O menino estava deitado sobre suas pernas. Maria disse a José para pegar a faca, cortar o umbigo, amarrá-lo e, feito isso, mandou lavá-lo na água dos animais, cobri-lo com a manta e dá-lo a ela para que o amamentasse.

Agora Jesus, o menino de Maria, adotado por José, pois que filho de Deus, dormia nos braços da mãe após beber o seu primeiro leite. A estribaria dormia àquela hora da noite. Só os dois, exaustos mas felizes, não tiravam os olhos do menino, gracioso e tranqüilo como todo justo. Foi quando, então, eles ouviram o local se encher de sons de música. Uma legião de anjos sobrevoou o teto do estábulo cantando “glória a Deus nas alturas”. O chão estremeceu, as paredes tremeram, os animais acordaram e levantaram as cabeças assustados, após recuarem. O céu lá fora ficou de repente tomado de intenso brilho e uma estrela brilhou mais do que as outras, dirigindo seu facho de luz para a manjedoura humilde de Belém, como a informar ao mundo que acabara de nascer o Filho de Deus, aquele que viera salvar os pecados do mundo.

Maria, exausta, quis fechar os olhos. José, cuidadoso, pegou o menino, cobriu-o com cuidado da cabeça aos pés e o acomodou na manjedoura que repousava ao lado.

Pastores  que trabalhavam no campo ao lado foram convidados pelo anjo a adorar o salvador do mundo. Eles foram chegando devagar, aos poucos, até encherem o local. Ficaram de vigília enquanto Maria e José dormiam.