cultura I
Num domingo em que o Domingão do Faustão resolveu entregar o seu Prêmio Melhores do Ano, Pablo Vittar se tornou não apenas a ganhadora da categoria Música do Ano com K.O. , mas a polêmica da semana. Aí vem aquela velha frase: “Não sou homofóbico(a), mas não tem nada a ver. A música é ruim, a voz é isso, a performance é aquilo”.
No meu porta CD não tem Pablo Vittar. Nem Luan Santana. Mas, entendo que o prêmio entregue pelo Faustão reflete o gosto de seu público: o povo, as massas, o brasileiro médio, aquele que ouve rádio e, mais antenado ainda, toma conhecimento de quem viraliza no Youtube ou nas outras redes sociais. Não é a minha predileção, mas quem disse que o meu ouvido está certo e o dos outros errado?
Luan Santana vende mais de uma centena de milhares de CDs em uma época em que tudo pode ser baixado na internet. Mobiliza outras centenas de milhares de pessoas em shows. Será que ele é tão ruim assim? Ou ele é diferente do que eu gosto e, por isso, eu tendo a desqualificá-lo?
Dito isso, reservo aqui meu aplauso para a tormenta desconstruidora de conceitos tradicionais que é A Pablo Vittar. Estamos acostumados a colocar todos num quadrado e guarda-los na estante. Com Pablo isso não será possível. Ela poderia ter adotado um nome artístico feminino como Lorraine Shirley, se vestir sempre como mulher e ser entendida como gay, travesti, transformista, quaquá, whatever… Mas, queridos, ela decidiu que vai ser o que quiser. Num dia está diva, no outro rapaz. E ninguém tem nada com isso.
Imaginar que o povo brasileiro aceita essa metamorfose ambulante é digno de prêmio mesmo. Não é só a música. É o simbolismo de uma figura que descontruiu na mente dos cidadãos e cidadãs os conceitos mais arraigados e forçou sua entrada no mainstream. Era o povo dizendo que queria Pablo. A cantora estadunidense Fergie levou-a ao palco do Rock in Rio 2017 para uma participação especial e ela não saiu da lista das atrações principais por outras duas noites.
Aplaudo o que significa Pablo. Entendendo isso e que o prêmio do Faustão é um afago a quem obtém sucesso popular, posso ouvi-la no MP3 com mais leveza até porque no estúdio a moça/rapaz canta bem melhor que ao vivo.
Em seus momentos femininos, a Pablo é ousada, extravagante, não faz concessões para os bons costumes. É uma mulher que aparenta gostar (e muito) de sexo. Quer acinte maior? Em outros tempos, para ela estaria reservada a fogueira. Nos dias atuais, prêmio. Ufa! No bonde do retrocesso, conseguimos enxergar entre as curvas de rímel espesso que alguém ligou o famoso botão do “nem aí” e foi feliz. Óbvio que pagará por isso um preço. Autônoma como é, quitará o débito e sairá no lucro. Lição para cada um de nós que, muitas vezes nos preocupamos em gastar o que não temos para parecer o que não somos a fim de “agradar” quem não está, na verdade, nem aí para nós.

 

Cláudia Carvalho
Cláudia Carvalho é radialista e jornalista premiada, com especialização em Jornalismo Cultural. Pioneira no webjornalismo da Paraíba, é apresentadora do Assembleia Notícias, da TV Assembleia. Estudiosa da relação da mídia com o noticiário de suicídio e mestranda em Jornalismo Profissional pela UFPB.