A decisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de pautar a votação da denúncia contra o presidente Michel Temer para o dia 2 de agosto representa uma derrota ao Planalto. O presidente batalhou em longas articulações durante a semana para garantir a vitória na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e tentar acelerar a derrubada da denúncia também no Plenário.

O governo comemorou o fechamento de questão de partidos do Centrão, que já garantia votos suficientes para derrubar a denúncia no Plenário. Mas auxiliares do presidente reafirmaram que ele está bastante incomodado com a situação, que reconhece causar constrangimento, e que o ideal seria derrubar a denúncia o quanto antes no Plenário. Segundo uma fonte, esse seria o mundo ideal do ponto de vista do Planalto, que agora não será mais possível.

Desde cedo, Temer articulou pessoalmente a situação, chamando ao Planalto os líderes da base para tentar dialogar com Maia sobre a possibilidade de pautar a denúncia para esta sexta-feira, 14. Conseguiu o compromisso de Maia de reunir o colégio de líderes para deliberar sobre o tema, mas a decisão foi contrária ao que esperava o Planalto.

Para o governo, a oposição está tentando prolongar uma “crise artificial” porque sabe que não terá votos para que o Plenário acate a denúncia. Hoje, durante cerimônia da reforma trabalhista, o presidente tentou passar um tom de otimismo e disse que segue trabalhando mesmo com “a suposta crise”. “Essas últimas semanas, certa e precisamente em função de uma suposta crise, o que tem acontecido é um entusiasmo extraordinário”, disse.

Mudança No fim da manhã, diante da constatação de que o governo não teria como mobilizar o quórum necessário de 342 votos, o discurso no Planalto começou a mudar. O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que “o problema de quórum” não era do governo. “Pode ser agora, pode ser agosto, quem quer receber a denúncia é que tem que colocar o quórum”, disse.

Leia Também:   Dono da Correio interrompe entrevista de Cássio e chama Lula e Dilma de bandidos

Ao Broadcast Político, Padilha reiterou, no entanto, que o governo continuava com o sentimento de derrubar a denúncia “o mais rápido possível”. “Se possível amanhã, se não der amanhã na semana que vem, se não der semana que vem, o mais rápido possível”, disse.

Mais tarde, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), disse que não era preciso mais pressa para votar a denúncia e também reforçou que caberia à oposição conseguir mobilizar a base para conseguir o quórum mínimo para a votação. “Pode ser que até 31 de dezembro de 2018, se eles conseguirem, a gente bota pra votar. Se não, vão processar o próximo presidente”, disse Jucá, após cerimônia no Planalto.

Questionado o que havia mudado, já que o próprio presidente Temer vinha defendendo pressa para derrubar a denúncia, Jucá afirmou que “mudou a interpretação dos fatos”. “Quem tem que ter voto não é o governo”, disse.

Afago Apesar da insatisfação de Temer com a postergação da apreciação da denúncia em Plenário, interlocutores do presidente tentaram minimizar o desgaste em torno da relação com Maia, que assume o cargo em caso de afastamento do presidente. Um auxiliar afirmou que, como o presidente da Câmara é o “juiz” desse processo, é complicado que o presidente articule com ele seus interesses. A mesma fonte minimizou o afastamento dos dois.

Tanto Padilha quanto Jucá também deram declarações no sentido de abrandar a situação com Maia. “O presidente Maia tem sempre sido correto conosco, não temos nada a reclamar. Pelo contrario, só elogiar”, afirmou o ministro da Casa Civil. Já Jucá, ao ser questionado se Maia era um aliado fiel ao Planalto, respondeu: “Maia é um aliado, foi importante em todas votações e será em votações futuras.”

PolêmicaPB